a obrigação de sentir-me nova. Como se eu arrancasse sentimentos imaturos que ainda não estão prontos para o consumo imediato. A pressão (essa palavra parece pressa no aumentativo) de apertar os olhos e fazer uma oração comovida, épica, cheia de promessas nobres, só me esvazia. Na falta da espontaneidade, acabo pensando banalidades: o que é que vai ter pro almoço de amanhã, quando começa o BBB10, quem vai ser o vencedor da Fazenda 2, quem nasceu agora é de que signo, será que consigo baixar aquele CD?
As pessoas sempre reclamam do último capítulo da novela com todo mundo casando ou ficando grávida. Felizes para sempre. E aí tentamos viver tudo igualzinho no dia 31. A gente quer provocar a morte e, por isso mesmo, vai morrendo todo ano e brincando de começar de novo, só pra fingir de imortal. A gente gosta da finitude, mas ela é melhor quando existe o dia seguinte. Ah! Se, ao menos, no dia seguinte o sol nascesse azul, o pão francês tivesse outro sabor, os carros voassem e houvesse um vírus da juventude...
O ano novo desvaloriza os outros nasceres do sol.